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Vol. 37. Núm. 2.
Páginas 115-116 (Fevereiro 2018)
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DOI: 10.1016/j.repc.2018.01.004
Open Access
Redução da inflamação sistémica após terapêutica de ressincronização cardíaca: uma nova forma de resposta?
Reduction of systemic inflammation after cardiac resynchronization therapy: A new form of response?
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Natália Antónioa,b
a Serviço de Cardiologia A, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Coimbra, Portugal
b Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal
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Rev Port Cardiol. 2018;37:105-1310.1016/j.repc.2017.06.017
Luís Almeida-Morais, Ana Abreu, Mário Oliveira, Pedro Silva Cunha, Inês Rodrigues, Guilherme Portugal, Pedro Rio, Rui Soares, Miguel Mota Carmo, Rui Cruz Ferreira
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A insuficiência cardíaca crónica (ICC) é a via final comum de várias patologias cardíacas. Apesar da relevante evolução verificada no seu tratamento ao longo dos últimos anos, essa complexa síndrome clínica continua a associar‐se a mau prognóstico1,2.

A terapêutica de ressincronização cardíaca (TRC) é atualmente uma opção bem estabelecida no tratamento da ICC, que permite alcançar melhoria clínica significativa, remodelagem ventricular reversa e ainda redução da mortalidade, em doentes selecionados2–4. No entanto, com base nos critérios de seleção atuais, uma proporção importante de doentes com ICC não responde positivamente à TRC5. Seria, portanto, importante identificar novos preditores que permitissem uma melhor seleção dos potenciais respondedores a essa terapêutica.

Apesar de a fisiopatologia da ICC permanecer mal compreendida, a estimulação neuro‐hormonal e a ativação imunológica têm sido implicadas no desenvolvimento e progressão dessa doença sistémica6,7.

Há evidência crescente do aumento dos níveis de várias citocinas pró‐inflamatórias nos doentes com ICC e essa resposta inflamatória tem implicações prognósticas negativas. A proteína C reativa (PCR) tem sido amplamente estudada, apresentando níveis elevados nos doentes com ICC comparativamente com controlos saudáveis8. Por outro lado, nos doentes com ICC, níveis elevados de PCR associam‐se a pior prognóstico8.

No entanto, o impacto da TRC na evolução do status inflamatório sistémico associado à ICC tem sido pouco investigado e a escassa informação existente é controversa. Portanto, a pertinência do estudo agora publicado é inquestionável9.

Trata‐se de um estudo de coorte, prospetivo, que envolveu 115 doentes com insuficiência cardíaca avançada de diferentes etiologias e indicação para CRT. O objetivo principal deste trabalho foi avaliar a evolução da resposta inflamatória (traduzida pelo BNP e PCR) após TRC. Teve ainda como objetivo secundário verificar a associação entre a variação dos parâmetros inflamatórios e a resposta funcional e ecocardiográfica à TRC. Os autores definiram como respondedores funcionais doentes com um aumento mínimo de 10% no consumo máximo de O2 e para a definição de respondedor ecocardiográfico consideraram a clássica redução de pelo menos 15% no volume telessistólico do ventrículo esquerdo, decorridos seis meses da TRC.

Este estudo traz‐nos resultados inovadores e interessantes relativamente ao comportamento da resposta inflamatória em doentes submetidos a TRC. Globalmente, a TRC associou‐se a uma importante redução dos níveis plasmáticos de BNP e de PCR, sugerindo que a par do benefício na evolução da ICC a TRC também pode contribuir (direta ou indiretamente) para uma redução da inflamação sistémica.

Alguns estudos prévios avaliaram o impacto da TRC na resposta inflamatória sistémica associada à ICC, verificando uma redução significativa de vários mediadores inflamatórios10–13. Em alguns desses estudos, essa redução dos parâmetros inflamatórios apenas se verificou nos respondedores à TRC14,15. Contudo, também há na literatura alguns trabalhos em que o efeito da TRC nos marcadores inflamatórios foi neutro, mesmo no grupo dos respondedores16,17.

Os autores do estudo agora publicado verificaram que as respostas funcional e ecocardiográfica à TRC não se correlacionavam e que, curiosamente, apenas os respondedores funcionais apresentavam redução significativa dos parâmetros inflamatórios após TRC. De acordo com esses resultados inovadores, a melhoria do status inflamatório pode ocorrer em resposta à melhoria funcional da ICC, mesmo na ausência de remodelagem ventricular reversa.

Apesar das limitações inerentes ao facto de o estudo em comentário se referir a uma população heterogénea em termos de etiologia da ICC, o que pode justificar distintas formas de ativação imune, este teve a vantagem de incluir uma população com excelente otimização da terapêutica farmacológica da ICC e com características clínicas muito homogéneas entre respondedores e não respondedores, quer pela definição ecocardiográfica quer pela funcional.

Longe de dominarmos os mecanismos do efeito da TRC na resposta inflamatória sistémica associada à ICC, muitas são ainda as questões pendentes a merecer investigação futura. Se a TRC reduz o status inflamatório dos doentes com ICC, quais os mecanismos subjacentes a essa melhoria? E que impacto prognóstico poderá ter essa potencial redução da inflamação sistémica? Por outro lado, será que a inflamação sistémica pode condicionar a resposta funcional à TRC? Poderão também os mecanismos imunes influenciar a capacidade da TRC induzir remodelagem ventricular reversa?

As incertezas relativamente ao impacto da TRC na inflamação sistémica persistem. No entanto, temos evidência crescente a consubstanciar a hipótese promissora de uma nova forma de resposta à TRC – a redução do status inflamatório associado à ICC.

Conflito de interesses

A autora declara não haver conflito de interesses.

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